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A corrida eleitoral na ficção de 22 escritores
Em 5 de novembro de 2018 | 0 Comentários

A edição 1.061 da revista Época da Editora Globo é ousada. A dois dias do domingo em que seria decidida uma das mais polarizadas eleições presidenciais, numa disputa em que uma avalanche de fake-news abarrotou as redes sociais, publicou uma edição político-literária intitulada É tudo mentira e deu destaque à seção em que convidou 22 escritores para que publicassem ficções com personagens destas eleições. O editor da e-galáxia Tiago Ferro participou com o conto abaixo:


O ASSASSINATO DO PRESIDENTE

A imagem nunca mais vai sair da sua cabeça. Você acorda no meio da noite e o pesadelo começa. É tudo em preto e branco. Sempre. O conversível desfilando lentamente na avenida de Dallas, os acenos de praxe, famílias nas calçadas, policiais uniformizados e agentes do FBI muito parecidos com o Clint Eastwood no filme em que ele precisa evitar que o Malkovich mate o presidente interpretado por um péssimo ator. E então o tiro. O disparo não tem som. Você fecha os olhos, mas a cor não vem. Você não consegue ver o amarelo dos cabelos loiros misturado aos diversos tons de vermelho até chegar ao marrom do sangue já pegajoso que encharca a massa encefálica deformada pela bala. O Godard costumava dizer que não se trata de sangue, mas sim de vermelho. Você se esforça para não vomitar na sua mulher dormindo ao seu lado quando imagina os homens fardados rindo depois do ritual de fuzilamento coletivo do presidente Allende. Todos fizeram questão de dar ao menos um tiro no chileno naquele 11 de setembro. Você nunca mais conseguiu fazer sexo depois que passou a construir no ecrã da sua mente as cenas daqueles filhos da puta voltando excitados para casa com sangue respingado nos uniformes e babando como lobos atrás das vaginas secas de suas esposas que não podiam imaginar há sete anos quando disseram sim em uma igrejinha de merda da periferia de Santiago que seriam estupradas naquela noite por seus maridos violentos cheirando a bebida barata como se fossem uma espécie de troféu em homenagem à covardia. Você vai ao banheiro e se encara no espelho. No filme hollywoodiano, o Kevin Costner defende que foram vários tiros de diferentes locais. Você finalmente é capaz de ver a expressão de cada um dos atiradores. Você se irrita quando pensa que são atores. Quem diria que aquele garoto tremendo num pau de arara em uma estrada nordestina iria se tornar a projeção dos melhores sonhos e também dos piores pesadelos dos brasileiros? Dois dias depois do tiro em Dallas, Jack Ruby matou Lee Oswald para depois morrer na prisão. Na Wikipedia USA, Oswald é Marine and Marxist e Ruby um Nightclub Owner. Os grandes mamíferos têm hábitos noturnos. No Congo de Leopoldo o horror era branco. Hienas destroçam leões e você nunca mais será capaz de mastigar carne. Gandhi foi baleado e na cena do filme ele diz Oh, God. Você se apoia na pia fria do fim da madrugada e ouve o primeiro ônibus do dia reduzir a marcha para subir a rua Harmonia. Eles se movem em grupo e é impossível entender quem elabora os planos. Você passou a urinar na cama. Mohamed Atta não agiu sozinho. Quando o Spielberg convidou o Tom Cruise para participar do filme 9/11, o galã da cientologia não entendeu por que não era possível alterar o roteiro e salvar os americanos no final. O Che jamais sentiu medo. Ele trepava nas árvores e preenchia compulsivamente os seus caderninhos. Não, não era o roteiro de Diários de Motocicleta. Você nunca engoliu o Gael no papel do herói argentino. O Bush estava numa escola infantil sentado em uma cadeirinha ridícula quando foi informado sobre os ataques. Ficou sem reação. Você não consegue deixar de pensar que era na verdade um aluno que depois de cinquenta anos preso naquela sala jamais conseguiu aprender a ler. Ele deu um jeito de tirar a família Bin Laden da América. Muhammad Ali era o Cara. Você nunca suportou as piadas reacionários no grupo de whatsapp da família. Você já trocou muitos presentes com os estupradores da presidente Dilma. Na piscina da ACM, a última senhora a sair da aula de hidroginástica pela escadinha de três degraus pariu em 1933 um dos assassinos do Marighela. O filho de um dos principais economistas brasileiros sonha em ter seu próprio avião e acha o Chico Buarque um bosta. Você não teve coragem de engolir o verme da tequila quando passou férias em Acapulco. Você pensa na adolescente mexicana de uma vila muito pobre que toma pílulas anticoncepcionais antes de trepar no teto do trem que a levará até o extremo norte do país porque ela não pode entrar na América carregando o filho do homem que irá estuprá-la no caminho. Os jovens americanos gostam de ir para a Disney de Las Vegas pagar por sexo anal com garotas colegiais fantasiadas de garotas colegiais. Você não sabe se foi mesmo a ação de um fanático ou interesses texanos no pré-sal. Não, você nunca mais vai dormir. Você vai ser massacrado, terá cada osso do corpo quebrado, a pele rasgada, você vai virar um saco disforme e mal-cheiroso e nas suas retinas a cena em Dallas vai se repetir para sempre em looping. Em preto e branco. Você sonha com o sol inclemente da África antes de Conrad. Um rinoceronte entra no rio para escapar do calor torturante. Um sol branco e cruel sobre uma terra negra. O Estádio Nacional do Chile.

E quando finalmente for pendurado no pau de arara, você vai conhecer de ponta-cabeça os rostos dos homens que assassinaram o presidente Lula.

Tiago Ferro
Conto originalmente publicado na edição de 29/10/2018 da revista Época


Leia os 22 contos aqui.

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