ARQUIVO 06/04/2017 CADERNO2 / CADERNO 2 / C2 / USO EDITORIAL RESTRITO / A escritora chilena Diamela Eltit. CRÉDITO: Dánisa Retamal Eltit
Com falas duras contra regimes autoritários e o neoliberalismo, chilena Diamela Eltit vem à Flip
Em 13 de abril de 2017 | 0 Comentários

Escritora é inédita no Brasil mas reconhecida e admirada na América Latina e Estados Unidos; dois livros seus serão publicados aqui.

Pouco conhecida e divulgada no Brasil, mas amplamente discutida no Chile e em outros países da América, a escritora chilena Diamela Eltit, de 67 anos, não só terá duas obras publicadas por aqui pela primeira vez, como também vem ao País para participar da 15.ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que ocorre entre 26 e 30 de julho.

Jamais O Fogo Nunca – romance de 2007 que foi eleito pelo suplemento Babelia, do El País, um dos 25 melhores romances em espanhol dos últimos 25 anos, no ano passado – será publicado no Brasil pela editora Relicário, de Belo Horizonte, com tradução de Julián Fuks, em julho. A e-galáxia publicará A Máquina Pinochet e Outros Ensaios, coletânea de textos críticos, traduzidos por Pedro Meira Monteiro, e organizados por ele e por seu colega em Princeton, Javier Guerrero – a Universidade americana também guarda os arquivos de Eltit, espécie de glória que ela compartilha com F. Scott Fitzgerald, Lewis Carroll, Charles Dickens, Oscar Wilde, Julio Cortázar, Mario Vargas Llosa e seu compatriota José Donoso, entre outros.

Diamela Eltit começou seu envolvimento com a arte no início dos anos 1980, no Chile sob a ditadura de Pinochet, no Colectivo Acciones de Arte (CADA), grupo do qual participavam também artistas e escritores como Raúl Zurita, Lotty Rosenfeld e Fernando Balcells. De lá para cá, construiu um projeto literário aclamado, muito ligado à resistência ao autoritarismo, ao combate à violência do estado e também à luta feminista. Foram quase duas dezenas de livros, entre romances, ensaios e memórias, e diversos prêmios e bolsas, como a Beca Guggenheim, o Prêmio José Donoso e o Prêmio Rómulo Gallegos – distinções que também foram atribuídas a gente como Gabriel García Márquez, Carlos Fuentes, Ricardo Piglia, Elena Poniatowska e Beatriz Sarlo.

Um de seus pontos de vista fundamentais é a relação intrínseca entre o corpo e o social.

“O corpo, além de sua biologia e de seus ciclos, é fundamentalmente social, é uma área de mandatos, discursos, escritas, proibições”, diz, por telefone, do Chile. “É uma área de experimentos, especialmente o corpo da mulher, muitas vezes imposto por regras do estado e do mercado.”

A relação é explorada em Jamais O Fogo Nunca – romance narrado em primeira pessoa por uma mulher marcada pela luta política no regime militar. O dado biográfico é comum a duas mulheres que ocuparam e ocupam centros de poder na América do Sul nos últimos anos, Michelle Bachelet e Dilma Rousseff. “A personagem do romance é uma sobrevivente da mesma experiência política, mas pertence à multidão anônima, de certo modo mutilada de sua própria história e desajustada ante o embate neoliberal.” Para Eltit, a literatura é um “signo no meio de outros” na luta política.

Eltit classifica o impeachment de Dilma Rousseff, no ano passado, de “uma injusta destituição muito problemática para todo o Continente” – sua obra nunca perdeu de vista as implicações das políticas locais para a América Latina. “Os países latino-americanos não superaram suas estruturas autoritárias porque agora está vigente o autoritarismo do mercado, o império do eu, o individualismo, e a violência da riqueza como o poder máximo que controla, domina, explora e exclui”, analisa.

“A democracia, por enquanto, parece uma máscara para sustentar um sistema muito extremo fundamentado na desigualdade e na exploração.”

Sua última visita ao Brasil, diz, foi há cerca de 12 anos, para um congresso universitário – com formação na área de letras e ciências humanas, ela já foi professora visitante nas universidades de Columbia, Berkeley, Stanford e atualmente comanda o programa de escrita criativa em espanhol da Universidade de Nova York (NYU). Para ela, a barreira da língua é o abismo mais evidente entre Brasil e Chile, no meio de outros. “Mas creio que acontece entre toda a América Latina, nos países hispânicos também. Sabemos o tempo todo o que é publicado na Espanha, mas pouco sabemos do mercado editorial da Bolívia, do Peru, da Costa Rica.”

O nome de Eltit, praticamente desconhecido no Brasil, é uma aposta da nova curadora da Flip, Joselia Aguiar – o primeiro autor confirmado na festa foi o escritor jamaicano Marlon James. “Autores homens da geração dela, anteriores e posteriores, circulam pelo Brasil, e só agora ela chega. Há vários casos assim, em diversas nacionalidades. Muitas autoras ótimas, premiadas”, comenta a curadora.

A geração anterior a de Eltit protagonizou o boom latino-americano – e embora ela reconheça a grandeza dos escritores, acredita que “foi um movimento muito masculinizado e de um momento que reuniu aspectos que não devem mais se repetir”, e que o mercado editorial da Espanha teve muita influência. A geração posterior viu a celebração internacional de Roberto Bolaño, seu conterrâneo – e desafeto. O caso envolve uma crônica que Bolaño escreveu e publicou sobre um jantar na casa dela e de Jorge Arrate, seu marido, então ministro de estado, considerada descortês e até machista.

Texto de Guilherme Sabota, originalmente publicado
no jornal O Estado de S. Paulo em 08.04.2017.
Foto: Danisa Retamal Eltit/divulgação