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Não sou a história da autopublicação
Em 28 de agosto de 2013 | 0 Comentários

A história da autopublicação é Jan Strnad, um educador de 62 anos, que tem a esperança de se aposentar em mais quarto anos. Em 2012, Jan ganhou US$ 11.406,00. Fruto de direitos autorais de sua obra autopublicada.

Isso é mais que o dobro do que ele ganhou com o mesmo livro nos seis meses em que esteve à venda pela Kensington, uma grande editora. Desde então, lançou um segundo trabalho e agora ganha cerca de US$ 2.000,00 por mês, mesmo você nunca tendo ouvido falar nele.

Rachel Schurig vendeu 100.000 e-books no ano passado. Ela é a história da autopublicação. Rick Gualtieri arrecadou mais de US$ 25.000,00, em 2012, com seus livros. Ele diz que é como ganhar um bônus de Natal todos os meses. Amanda Brice é uma advogada do governo federal especialista em propriedade intelectual. Em seu tempo livre, ela escreve livros de mistérios para adolescentes e comédias românticas adultas. Ela ganha em média US$ 750,00 por mês com seus livros.

Como Schurig, Robert J. está mudando rapidamente de patamar. Quando revelou seus lucros no ano passado, sua renda mensal havia passado de US$ 110,00 em junho para US$ 13.000,00 em novembro. Ele estava ganhando mais em um mês do que muitos autores estreantes ganham como adiantamento de uma grande editora. E ele ainda possui os direitos de sua obra. Seus ganhos só vêm crescendo desde então.

Ele estava ganhando mais em um mês do que muitos autores estreantes ganham como adiantamento de uma grande editora. E ele ainda possui os direitos de sua obra. Seus ganhos só vêm crescendo desde então.

Agora você provavelmente está pensando que essas histórias de sucesso de autopublicação são o resultado de meus melhores exemplos. Na verdade, essas histórias apareceram neste exato momento na minha caixa de mensagens. O único viés de amostragem é que esses escritores responderam a um tópico que eu assim intitulei: “Quero ouvir dos autores que se autopublicaram”. Eu queria saber quantos membros do fórum ganhavam entre US$ 100,00 e US$ 500,00 por mês. Minha suspeita é que era mais do que qualquer um de nós imaginava. Cada resposta que recebi começava com uma variação de: “Na verdade, estou ganhando muito mais do que isso”.

Eu queria saber quantos membros do fórum ganhavam entre US$ 100,00 e US$ 500,00 por mês.

Meu fascínio com essa história teve início quando os principais meios de comunicação americanos, como Entertainment Weekly e a revista Wired, me convidaram para entrevistas. Talvez a transição de autor que ganhava quase um salário mínimo para bestseller da lista do New York Times fosse muito surreal para que eu tomasse como verdade, mas minha reação a essas súplicas era que eu não poderia ser a história da autopublicação. Para cada caso fora da curva, como eu ou Bella Andre ou Amanda Hocking, deve haver centenas de pessoas que ganham bem o bastante com seus livros para pagar algumas contas. Quanto mais tempo gasto online em vários fóruns de escrita, mais esse palpite torna-se uma verdadeira teoria. Pessoas que interagiram comigo todos os dias foram aparecendo na lista dos mais vendidos. As supostas centenas parecem ser milhares. E isso só pode ser uma fração do número real.

Claro, você vai ler artigos lamentando a escassez de vendas da maioria dos livros autopublicados, mas há um problema com a comparação de média de vendas entre publicações independentes e publicações tradicionais. Nas publicações independentes, entram absolutamente todos os livros. Essas comparações entre os dois caminhos tomam a ponta de um iceberg (os livros que fizeram sucesso em livrarias) com um iceberg inteiro (todos os publicados de forma independente). Não é uma comparação justa.

Outro problema com os dados que depreciam a publicação independente é que muita informação se refere à época em que autores que optavam pela autopublicação tinham que imprimir centenas de livros e armazená-los em suas garagens. Esses relatos de aflição literária incluíram todas as pessoas que simplesmente escreveram e publicaram um livro para usar como caderno de anotações. Ou aqueles que queriam compartilhar suas memórias com a família e amigos. Ou aqueles que só tinham um único livro em si. Ou aqueles que desistiram depois de completar o primeiro romance. Ou ainda aqueles que escolheram escrever em um gênero que tem um público muito restrito.

Eu celebro qualquer uma dessas razões!

Mas o que me fascina, como um autor independente, não são aqueles que publicam um único romance, mas sim, aqueles que fazem da escrita um grande passatempo, um segundo emprego ou até mesmo uma carreira.

Gostaria que mais pessoas escrevessem com mais frequência. Mas o que me fascina, como um autor independente, não são aqueles que publicam um único romance, mas sim, aqueles que fazem da escrita um grande passatempo, um segundo emprego ou até mesmo uma carreira. Aqueles que levam a sério a sua escrita, que publicam mais de um título por ano e seguem fazendo isso ano após ano. Eles estão descobrindo o verdadeiro sucesso com a sua arte. Eles estão ganhando centenas ou milhares de dólares por mês. Vi vários amigos baterem a lista dos mais vendidos do New York Times. Há uma multidão silenciosa lá fora, ganhando dinheiro e ainda fazendo algo que amam, e isso deve ser comemorado.

Nada disso é para dizer que todo mundo que se publica – mesmo aqueles que estudam o ofício, levam seu trabalho a sério e produzem um fluxo constante de material – vai encontrar o sucesso financeiro. Também há sorte envolvida e os gostos inconstantes dos leitores. Mas o que está se tornando mais evidente a cada dia que passa é que você tem melhores chances de pagar uma conta ou duas por meio da autopublicação do que se optasse por qualquer outra forma de publicação.

Mas o que está se tornando mais evidente a cada dia que passa é que você tem melhores chances de pagar uma conta ou duas por meio da autopublicação do que se optasse por qualquer outra forma de publicação.

Muitos de vocês provavelmente estão com raiva de ouvir isso. Você pode pensar que este é um raciocínio post hoc de uma das pessoas que teve sucesso. Só que eu estava defendendo esse ponto de vista antes dos meus próprios livros decolarem! Pareceu-me lógico naquela época, e parece lógico agora. Assim que o custo de produção e distribuição zeraram, o jogo mudou. Só levou um tempo para que todos percebessem a mudança (ainda estamos à espera de alguns retardatários, mas eles ainda vão sacar).

 

Música e literatura

Vamos comparar música com literatura por um momento. Não, não as indústrias que estão seguindo mudanças semelhantes devido à chegada da era digital, eu quero dizer as pessoas que fazem música e as que escrevem. Vamos olhar para os artistas.

Quantos autodidatas tocam guitarra? Nós celebramos isso, não é? Mesmo enquanto atravessam a fase de construção insensível, nós admiramos quem aprende a gramática de acordes e, em seguida, amarra essas frases todas numa música. Eles começam tocando covers de suas bandas favoritas, da mesma forma que um aspirante a autor pode escrever fan fiction. Eles vão dedilhar na calçada com um chapéu entre os pés exatamente como alguém pode escrever num blog. Eles tocam em lugares pequenos em noites de microfone aberto que podemos comparar com livros gratuitos em pequenos sites. Eles esperam ganhar o público local em primeiro lugar. Eles podem ser convidados para abrir o show para um artista famoso, o que seria semelhante a ganhar uma resenha de um autor bestseller. Talvez um olheiro possa descobrí-los ao vivo ou no YouTube, como um agente descobre um autor em uma lista de bestsellers. É assim que os artistas nascem. Eles são self-made. Eles se apresentam para as pessoas. Eles aprendem e melhoraram com o tempo.

A antiga rota para o sucesso literário parece indigesta e ultrapassada por comparação. Você escreve em um vácuo, ou para um professor que franze a testa; você participa de workshops com outros escritores; submete seu texto ao gosto de um estagiário em uma agência literária; você se destaca da massa; você espera conquistar o editor de uma grande editora; um ano depois seu livro é publicado e vai parar na estante de uma livraria; depois de seis meses ele será devolvido para a editora e sai de catálogo; você começa tudo de novo. O leitor em geral está a quilômetros de distância de você nesse processo. Você nunca teve a oportunidade de ser lido pelas únicas pessoas que realmente importam.

Com a autopublicação, você aprende o seu ofício, enquanto produz material. Você conquista seus leitores diretamente. Você possui todos os direitos sobre as suas obras e elas estarão disponíveis por toda a sua vida (e além). Nada sai de catálogo. Acho que essa vantagem é difícil de ser apreciada plenamente. Meu trabalho mais vendido foi o meu oitavo ou nono título. Assim que decolou, o resto do meu material decolou com ele. Para o leitor, era tudo novidade. Para os que nascerem hoje e que se tornarão leitores ávidos daqui a 15 anos, minhas obras ainda serão novas. Toda a minha obra estará sempre em catálogo e sempre rendendo alguma coisa para mim. Nada é devolvido da estante digital.

Outra vantagem é o preço. Recomendei um livro para leitores recentemente, até descobrir que o e-book passou a ser vendido a 12,99 dólares! Eu não posso acreditar que os editores façam isso. Mas sim, eles têm que se preocupar em competir com outros produtos. Se os preços dos livros de seu catálogo estiverem muito baixos, o medo é que os leitores irão ignorar os lançamentos. Quando Travis McGee, série de John D. MacDonald, saiu por 11,99 dólares, eles perderam um cliente: eu. Por US$ 2,99, eu teria comprado cada um daqueles clássicos. Duvido que leria todos (de novo), mas gostaria de tê-los comprado. Então vem o temor de que o e-book vai canibalizar a cópia impressa ou o próximo lançamento. Quando você parte para a publicação independente, você se preocupa com o seu trabalho mais do que ninguém jamais se preocupou. Isso significa colocá-lo à venda por um preço para ganhar o maior número de leitores possível.

Quando você parte para a publicação independente, você se preocupa com o seu trabalho mais do que ninguém jamais se preocupou. Isso significa colocá-lo à venda por um preço para ganhar o maior número de leitores possível.

A dupla vantagem de preço e de nunca se esgotar tornou para mim mais fácil recusar ofertas de grandes editoras. Mesmo quando essas ofertas subiram para os sete dígitos, não havia nenhuma chance de desistir de uma renda mensal vitalícia, por um pagamento único, especialmente quando esse pagamento significa que, em seis meses, meu trabalho seria visto como concorrência para o que fora recém-lançado.

Aqui está a realidade: como você publica não irá afetar significativamente a qualidade da sua obra. Hoje em dia, manuscritos precisam ser perfeitos antes de serem submetidos a agentes ou antes de serem autopublicados, por isso não se engane achando que um rascunho pode se tornar um grande romance com a ajuda de um agente ou de uma grande Editora. Simplesmente não é provável que aconteça. Seu livro será o seu livro, não importa o caminho que você tome. Não vai ser horrível simplesmente porque você optou pela autopublicação, e não será surpreendente apenas porque algum agente disse que seria. Ele terá de provar o seu valor para leitores de uma forma ou de outra, seja qual for o caminho que você tomar.

Existem duas possibilidades. Seu livro pode estar no 1% do que os leitores estão procurando – por pura sorte ou pela graça de sua prosa –, caso em que você estará muito melhor publicando de forma independente. Você vai ganhar mais dinheiro mais cedo, e os direitos são seus quando chega a hora de negociar com as editoras (se você se importa com isso). Se, por outro lado, seu trabalho não está naquele 1%, você não sairá das pilhas de manuscritos dos agentes e editoras. Sua única esperança, neste caso, é a autopublicação. O que significa que não há nenhum cenário em que eu recomendaria a um autor começar sua carreira com uma editora tradicional. Nem um.

Louis C.K. provou isso para a comédia. Quanto melhor você for, mais vale a pena produzir e possuir seu próprio trabalho. Se você não estiver nesse nível, produzir por si mesmo é a única opção. Única opção ou melhor opção. É simples assim.

“Mas eu só quero escrever”, você pode dizer. “Eu não quero pensar em mais nada.” Bem, boa sorte. Mesmo se você fechar com uma grande editora, o sucesso do seu trabalho vai depender de você conhecer do negócio e encarar todos os desafios que os autores independentes enfrentam. Há apenas um punhado de autores no mundo que pode passar a vida escrevendo e repassar todas as outras preocupações adiante. A promoção será você. Seu editor vai querer a sua presença na mídia social antes de oferecer-lhe o contrato para um livro. Aprender os meandros da autopublicação, antes de assinar com uma grande empresa, é a melhor formação que se possa imaginar. Não fazê-lo seria como um piloto de corridas que não se importa com o que está sob o capô. Me chama a atenção, depois de ter trabalhado com grandes editoras, que muitos dos meus amigos autopublicados sabem mais sobre o atual cenário de publicação do que veteranos da indústria com décadas de experiência. Quanto mais você aprende e quanto mais mantém a mente aberta, melhores serão suas chances de sucesso.

O resto dessa história será escrito nos próximos anos. Ainda é cedo, mas eu prevejo que mais e mais pessoas vão encontrar o sucesso com a autopublicação. Eles vão seguir o caminho de outros artistas que trabalham sua carreira a partir de pequenos começos, em vez da esperança de fazer sucesso em sua primeira tentativa nos palcos.

Aspirantes a autores me enviam e-mails o tempo todo pedindo conselhos, e eu lhes digo a mesma coisa: encontrei o sucesso porque escrevi pelo amor à escrita.

Aspirantes a autores me enviam e-mails o tempo todo pedindo conselhos, e eu lhes digo a mesma coisa: encontrei o sucesso porque escrevi pelo amor à escrita. Optei pela publicação independente simplesmente porque eu queria ter o meu trabalho publicado e queria torná-lo disponível para os leitores. Não esperava nada. Escrevia como alguém que faz jardinagem, simplesmente pelo prazer do ato da criação. O fato de eu poder pagar minhas contas – um feito que se torna mais comum a cada dia – foi um bônus inesperado. Eu estaria fazendo isso na rua com um chapéu aos meus pés se eu tivesse que fazer. Eu estaria agradecendo a todos que jogassem uma moeda para mim. Claro, seria uma loucura pensar que eu poderia me tornar o próximo Clapton ou Hendrix, mas, para cada estrela desse tipo, existem milhares de músicos tocando nos fins de semana, amando o que fazem, e pagando algumas contas como resultado. Finalmente, o mesmo pode ser dito sobre os autores. E essa é a história real da autopublicação.

Hugh Howey é um autor americano bestseller conhecido pela popular série de livros autopublicados WOOL.

Foto: AC Espilotro