REBEL WITHOUT A CAUSE, James Dean on set, 1955
O mais jovem mito cinematográfico
Em 30 de setembro de 2015 | 0 Comentários

No primeiro dia de outubro de 1955, enquanto as primeiras páginas dos vespertinos cariocas apontavam o general Juarez Távora como favorito à sucessão presidencial e as seções esportivas gabavam a campanha do Vasco da Gama no campeonato da cidade, nos cadernos de amenidades a queda de braço da Censura com o filme Rio 40 graus, de Nelson Pereira dos Santos, a condenação, “por desacato”, da atriz nudista Luz del Fuego e as filmagens, na Europa, da superprodução Guerra e paz, com Henry Fonda e Audrey Hepburn abafaram uma notícia que o tempo, logo, logo, tornaria mais consequente que a derrota de Juarez para JK, os elogios da crítica a Rio 40 graus, o outono de Luz del Fuego e o sucesso nas bilheterias de Guerra e paz.

Na véspera, um jovem ator de cinema, praticamente desconhecido por estas bandas, morrera numa autoestrada da Califórnia, esmagado entre as ferragens de um Porsche Spyder prateado. Tinha só 24 anos e apenas um filme já exibido em seu país: East of Eden, que no Brasil seria traduzido por Vidas amargas. O segundo, Rebel Without a Cause, chegaria aos cinemas americanos 19 dias depois do enterro do ator. E o terceiro, Giant, ainda em filmagem, dali a um ano.

Não me lembro de como tomei conhecimento da morte de James Dean. Sua instantânea mitificação, contudo, acompanhei-a nos mínimos detalhes, com aquele fanatismo típico dos cinemaníacos pubescentes. Os únicos heróis da molecada da minha geração ou vinham dos gibis ou das telas ou do rádio ou dos campos de futebol. De uma hora para outra, ampliamos nossa minguada mitologia e ganhamos até ritmos dirigidos à nossa faixa etária.  Minha geração foi a primeira a usufruir de uma cultura juvenil específica, autônoma, própria: da indumentária (jeans, camiseta, tênis, jaqueta de couro ou nylon) à música (rock, bossa nova, twist) e veículos (motos, lambretas).

Antes de Elvis virar rei, já havíamos sepultado um mito, em muitas partes venerado antes mesmo de ser visto e mensurado numa tela. E pensar que já está fazendo meio século que tudo isso aconteceu. Ou começou.

Certas contas me assombram. Em 1955, quando James Dean (doravante Jimmy) morreu, fazia apenas 29 anos que uma úlcera perfurada destruíra Rodolpho Valentino, o James Dean do cinema mudo. Naquela época, 29 anos pareciam uma eternidade até para quem já deixara para trás a adolescência. Em 1955 nem os cinquentões veneravam mais Valentino. Com James Dean, tudo foi diferente. Embalsamado pela indústria da idolatria, virou um Tutankamon da sociedade de consumo, um ícone com prazo de validade sempre renovado —como Marilyn Monroe, Humphrey Bogart, Elvis, John Lennon.

Há 50 anos, Valentino, que não foi além dos 31, parecia uma figura do século XIX. Jimmy, ao contrário, nunca perdeu seu frescor. Surgiu e se fez moderno, contemporâneo, como uma síntese da fureur de vivre incubada nos jovens nascidos sob Roosevelt e criados sob Truman, Eisenhower e a Guerra Fria, um rebelde pós-existencialista, um filho bastardo (e beatnik) de Albert Camus, que, não custa lembrar, também morreu on the road. Se hoje entrasse numa festa, ninguém o acharia estranho, deslocado, anacrônico. Sobretudo se viesse como aparece nas sequências decisivas de Juventude transviada (Rebel Without a Cause): jeans, camiseta branca e jaqueta de nylon cor de salmão. Melhor ainda se seus pés calçassem um tênis branco Jack Purcell, o preferido do ator. Tampouco causaria estranheza se viesse com as botas de caubói de Jett Rink, seu personagem em Assim caminha a humanidade (Giant).

James Byron Dean. Byron, como o poeta e lorde inglês, igualmente aquariano e tragicamente desaparecido bem distante da velhice. Ideia de Mildred, a mãe, filha de fazendeiros de Indiana que adorava poesia e um câncer levou quando Jimmy tinha apenas 9 anos. Fazia então 4 anos que Mildred e Winton, o pai, protético, haviam levado o filho único para Los Angeles. Arrasado pela morte da mãe, Jimmy parou de estudar violino e voltou para sua terra natal, não exatamente para a provinciana Marion (Indiana), onde nascera em 8 de fevereiro de 1931, mas para a rural Fairmont, sob as asas dos tios Ortense e Marcus Winslow e dos primos Joan e Marcus Jr. Estudante relapso, atleta esforçado (basquete e beisebol), preparou-se para enfrentar uma faculdade de Direito, mas o teatro melou as expectativas familiares. Aos 18, adeus Indiana, alô Nova York.

Manhattan, 1949. Nenhuma originalidade biográfica: cursinhos de arte dramática, bicos como garçom e trocador de ônibus, um quarto na Associação Cristã de Moços da rua 64. Em 1951, a primeira oportunidade de se mostrar e ser notado: numa telessérie religiosa do padre Patrick Peyton, no papel de São João Batista. Teatro, só dois anos depois, num palco da Broadway, ao lado de Arthur Kennedy e Constance Ford, em See the Jaguar. Poucas récitas, pichação geral da crítica, ressalvas para o talento do “jovem ator estreante”. Com pequenas aparições em teledramas (todos transmitidos ao vivo; não existia videoteipe) e aulas no Actors’ Studio, foi tocando o barco e fazendo amizades importantes com atores (Yul Brynner), diretores (Sidney Lumet), promessas (Martin Landau) e uma agente que até parecia ter sido enviada do Céu por Mildred Dean: Jane Deacy.

Facilitou o trabalho de Jane o prêmio de “revelação do ano” que Jimmy arrebatara por sua participação numa montagem de O imoralista, de André Gide. O teste para o papel de Cal Trask em Vidas amargas foi obra de sua insistência. Quando o viu, John Steinbeck, autor do romance que deu origem ao filme, exclamou para Kazan: “Mas ele é o próprio Cal!”

Tudo isso eu já sabia antes mesmo de assistir à primeira das minhas 16 sessões de Vidas amargas. Mera extravagância adolescente. Lia qualquer coisa a respeito do ator, comprava todas as revistas que montaram em torno dele um culto acintosamente necrófilo, como fizeram com Valentino e fariam com Elvis. Algumas revistas daquele período, a maioria sensacionalista, continuam guardadas, assim como alguns livros, exceto a primeira biografia aqui traduzida, pela Vecchi, escrita por um jornalista francês, Yves Salgues: oportunista e fuleira se comparada à segunda que às minhas mãos chegou, ainda em 1957, assinada por William Bast, um dos primeiros amigos de Jimmy em Los Angeles.

Cheguei a ser o garboso possuidor de uma jaqueta igual à que o ator celebrizara em Juventude transviada — e sair à rua com ela exigia certa coragem, ego forte, pois salmão não era “cor de homem” 48 anos atrás. De qualquer maneira, não era uma fantasia (ou um mico) como vestir um uniforme de Darth Vader e entrar numa fila de Darth Vaders para ver, não uma obra-prima como Vidas amargas, mas um sundae intergaláctico cuja produção em série é um atestado de suas intenções mercantilistas. Os tênis Jack Purcell, qualquer um pode comprá-los: continuam iguais, só que há tempos fabricados pela Converse.

De um mico indiscutível eu escapei ao resistir às pressões de amigos para me inscrever no programa O céu é o limite, da TV Tupi, nossa mais famosa imitação dos quiz shows americanos. Se fracassasse, morreria de vergonha. Se me consagrasse, talvez até hoje fosse conhecido como “aquele garoto que sabia tudo sobre James Dean.”

Recapitulando: Vidas amargas, 16 vezes (17 com o recém-lançado DVD); Juventude transviada, seis ou sete (envelheceu mal ou talvez não fosse aquilo tudo que o Cahiers du Cinéma nos induziu a crer); Giant, umas quatro (o mais fraco e longo dos três, mas melhorou com o tempo). Tente imaginar Vidas amargas com Marlon Brando e Montgomery Clift, os primeiros intérpretes cogitados.  Com 30 e 34 anos, respectivamente, jamais passariam por jovens de 19 anos, a idade de Cal e Aron Trask, o Abel e Caim recriados por Steinbeck. O escritor tirou na pinta: Dean era Cal. E as plateias sacaram de primeira que Cal era Dean.

E se outro (quiçá Paul Newman) tivesse encarnado o Jim Stark (fusão de Jimmy com Cal Trask) em Juventude transviada? Quase aconteceu. Jimmy deu o bolo na festa de lançamento de East of Eden em Nova York, na noite de 9 de março de 1955, e a direção da Warner pensou em tirá-lo do projeto. Mas cadê coragem depois da estrepitosa consagração do filme e do ator?

Cheguei a ter um pesadelo com J. Silvestre, o apresentador de O céu é o limite, me lançando a seguinte pergunta diante do auditório da Tupi: “Qual a primeira atriz escolhida para interpretar Judy em Juventude transviada e a quem, afinal, esse papel foi entregue?” E eu suando frio, sem saber o que responder. Aqui vai: Jayne Mansfield e Natalie Wood. E já que estou falando em Juventude transviada, aquela casa com a piscina vazia em que Jim, Judy e Plato (Sal Mineo) se refugiam é a mesma onde morava Norma Desmond, a crepuscular diva de Sunset Boulevard.

Numa de minhas peregrinações a lugares santos cinematográficos (milhões de fiéis visitam Lourdes, Fátima e Santiago de Compostela, por que não iria eu aos locais onde certos filmes foram rodados?), passei uma tarde no Planetário e seus arredores, no alto do Griffith Park, cenário de dois momentos-chave de Juventude transviada, com uma super-8 registrando tudo. Como nunca fui ao Texas, nenhuma peregrinação fiz à vastidão de Marfa, onde se estendiam os domínios de Reata, o latifúndio agrário de Bick Benedict (Rock Hudson), até porque sabia que não encontraria mais por lá aquele impactante casarão bolado por Boris Levin. E Giant, em si, não valia tamanho sacrifício.

Jimmy ganhou um papel reservado para Alan Ladd, que, se tudo tivesse acontecido como Stevens previa, teria como patrões William Holden e Grace Kelly, em vez de Hudson e Elizabeth Taylor. Apesar de alguns bons momentos (destaque para a sequência em que Jett Rink descobre petróleo em seu minifúndio e vai até Reata deixar a marca da nova riqueza texana na alva varanda do casarão), deveria ter sido o primeiro filme de Jimmy: seu personagem é de pouca grandeza, um retrocesso em relação às estelares aparições anteriores — e, como os demais, envelhece fisicamente de forma patética.

De todo modo, foi vendo Giant que presenciei uma das mais tocantes manifestações de êxtase coletivo da minha vida.

Segundo semestre de 1958. Programado para a semana de pré-estreias que encerrariam a mostra A História do Cinema Americano, organizada pela Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Giant finalmente seria exibido no Brasil, dois anos após sua estreia nos EUA. Duas horas antes de a primeira sessão ter início, as filas já dobravam a esquina mais próxima do cine São Luiz, no Largo do Machado. Iniciada a projeção, um silêncio reverencioso baixou na sala; nem pigarro se ouviu. Todos sabiam que Jimmy demorava um pouco a entrar em cena: exatos 23 minutos — muito tempo de espera, mesmo num filme com 208 minutos de duração.

Quando ele finalmente aparecia, em close, displicentemente encostado num calhambeque conversível, espiando como um gato vadio a festiva chegada de Bick e Leslie (Liz Taylor) da lua de mel, um orgástico “ohhhhh!’ coletivo quebrou o silêncio, liberando meses e meses de curiosidade reprimida. O jovem deus da tela, o nature boy de Hollywood, já devidamente canonizado, não era o gigante a que o filme se referia, mas ninguém acreditou nisso.

O texto “O mais jovem mito cinematográfico” integra o livro O colecionador de sombras, de Sérgio Augusto.

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