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    Peixe-elétrico #01 de Alcir Pécora, Juan Villoro, Leonardo Martinelli, Ricardo Piglia, Marcelo Moreschi, Matilde Campilho, Grátis!

    Nesta edição:

    Os livros da minha vida – RICARDO PIGLIA
    Ricardo Piglia organiza neste ensaio alguns aspectos de suas memórias a partir dos livros que teriam lhe marcado de forma bastante particular, sobretudo até a sua juventude. Lançando mão do sempre presente Emilio Renzi, o autor de Respiração artificial engenhosamente mostra que se há algo de sua vida que pode ser retomado, é a literatura. O texto de Piglia circulou durante a Feira do Livro de Guadalajara de 2014 e é uma amostra das publicações que ele está programando lançar. São textos memorialísticos, fragmentos de resenha, entradas de diários etc. Peixe-elétrico publica em primeira mão essa nova fase da obra de um dos principais escritores latino-americanos.

    A arte de ler – JUAN VILLORO
    O texto de Juan Villoro comenta justamente a nova produção de Ricardo Piglia, observando como há ali uma espécie de ética de leitura. Para Villoro, Piglia está sintonizado com a ideia de Borges de que um livro tem a vida decidida por seus leitores e por isso seleciona momentos bastante delicados e radicais da arte de ler: homens encarcerados ou à beira da morte são alguns dos leitores que mais interessam a Ricardo Piglia. Haveria ainda na operação contemporânea do escritor argentino uma espécie de balanço de sua trajetória literária. Ler Piglia apresentado por Villoro nos parece um privilégio: são dois dos escritores mais livremente criativos da América Latina contemporânea.

    A musa falida – ALCIR PÉCORA
    A famosa crise nos estudos de humanidades é discutida por Alcir Pécora na palestra que ele ofereceu aos alunos ingressantes na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra no início do ano letivo 2014-15. Mais do que apenas identificar fraturas ou apontar problemas, Pécora lança mão de um grupo de teóricos contemporâneos para fazer uma espécie de proposta de sobrevivência diante dos impasses que as humanidades no geral, e mais especificamente os estudos literários, enfrentam há alguns anos. O ensaio do professor da Unicamp ainda ilumina a proposta de rede que a Peixe-elétrico pretende estabelecer, ao mencionar um ensaio de Boris Groys, que iremos publicar em um dos nossos próximos números.

    Repare nos peixes: se debatendo, se debatendo sobre a pedra fria – MATILDE CAMPILHO
    Matilde Campilho, um dos nomes mais interessantes da nova poesia portuguesa, publica a primeira resenha da série que Peixe-elétrico pretende lançar em suas edições. Com a mesma sensibilidade de seus poemas, Campilho analisa Desalinho de Laura Liuzzi, associando-o a outras manifestações culturais e identificando as tendências de outra jovem artista. Sem nenhum tipo de direcionamento, pretendemos publicar uma resenha por edição de Peixe-elétrico.

    O som ao redor (e a música que nos representa) – LEONARDO MARTINELLI
    O texto de Leonardo Martinelli discute como as políticas públicas de divulgação internacional de nossa música erudita obedecem a uma visão de nação muito específica e que acaba deixando de lado diversas manifestações interessantes e representativas. É uma forma excludente e às vezes clichê de pensar o Brasil, muitas vezes para satisfazer a uma certa visão estrangeira já pré-concebida sobre nós. Junto com o texto de Alcir Pécora, Martinelli demonstra a disposição de Peixe-elétrico para o debate franco, crítico e livre, além de deixar claro nosso interesse por todas as artes.

    Mário de Andrade como ruína psicoetnográfica: o retrato de Flávio de Carvalho – MARCELO MORESCHI
    Marcelo Moreschi, professor da Unifesp, assina um longo ensaio sobre o retrato que Flávio de Carvalho pintou de Mário de Andrade, as leituras e repercussões da obra e, sobretudo, a maneira como um dos nossos líderes modernistas construiu aos poucos a própria imagem e tentou controlar a recepção de seu trabalho. É um texto que demonstra por fim a intenção de Peixe-elétrico de intervir no debate sobre a tradição artística brasileira. Pretendemos discutir ainda a obra de muitos artistas canônicos, sempre em textos fundamentados e que possam gerar outras reflexões.

    O globo da morte de tudo – NUNO RAMOS e EDUARDO CLIMACHAUSKA
    O ensaio visual que ilustra esta edição de Peixe-elétrico é parte do registro da exposição O globo da morte de tudo, de Nuno Ramos e Eduardo Climachauska. No caso desses dois artistas emblemáticos, a atitude de colocar tudo abaixo, serviu como motor para a produção de uma performance singular e perturbadora. Peixe-elétrico não podia estrear com imagens mais adequadas.

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    Signo e desterro – Sérgio Buarque de Holanda e a imaginação do Brasil de Pedro Meira Monteiro R$ 31,00

    Há tempos que os ensaios clássicos de interpretação do Brasil, escritos nas décadas de 1920 e 1930, vêm alimentando nosso debate intelectual, dentro e fora da universidade. “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda, está entre os que permanecem nos interpelando e nos ajudando a qualificar a dimensão de processo social que o nosso presente ainda oculta. Como um código, de cuja decifração dependesse a compreensão do peso do passado na configuração do presente e das nossas perspectivas de futuro enquanto sociedade.

    Signo e desterro de Pedro Meira Monteiro vem contribuir imensamente com os estudos do pensamento social brasileiro, desenvolvidos nas ciências sociais, história e estudos literários, que têm apostado no potencial heurístico daqueles ensaios para aproximar questões do presente, ou perenes em nossa sociedade, às interpretações do passado. Não apenas repensar os ensaios em sua identidade histórica, tarefa sem dúvida importante; mas surpreender e forjar um espaço cognitivo de comunicação entre o tempo da escritura e o nosso próprio tempo. Aliás, aí está uma exigência do ensaio como forma na recomposição da relação sujeito/objeto do conhecimento.

    As duas tarefas podem ser complementares, e, talvez, o êxito de Signo e desterro se deva também ao fato de ser ponto de chegada de um denso percurso intelectual, rico em deslocamentos de toda sorte. Além de autor de um dos livros fundamentais sobre Sérgio Buarque de Holanda, publicado há mais de uma década, entre outros trabalhos, Pedro Meira Monteiro com este seu novo livro amplia e enriquece nossa visão sobre “Raízes do Brasil” ao situá-lo em relação não apenas a temporalidades, mas também a contextos nacionais e tradições intelectuais distintas. Com a elegância intelectual de sempre, Pedro nos conduz agora pelas permanências de “Raízes do Brasil” na imaginação do país. Ao fazê-lo, concorre para redirecionar o estudo comparativo do pensamento social brasileiro para um campo mais aberto e mais criativo que o costumeiro. Enfim “desterrado”, “Raízes do Brasil” tem ainda muito a nos dizer, como verá o leitor.
    (André Botelho)