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Tolstói, Debret, Roberto Schwarz e as biografias
Em 31 de outubro de 2013 | 0 Comentários

Já que parece óbvio que as duas ideias centrais defendidas pelo grupo Procure Saber são absurdas (aprovação prévia de conteúdo e pagamento de royalties aos biografados), resta-nos tentar extrair

algum significado dessa batalha bizantina que tomou conta do país.

A famosa frase de Tolstói (que já foi pintada até em para-choques de caminhões) – “As famílias felizes parecem-se todas; as famílias infelizes são infelizes cada uma à sua maneira” –, nos indica o quanto debates tristes podem ser produtivos em termos de inteligibilidade; seja a respeito de uma família, de um indivíduo ou de um país.

Dito isto, o que podemos então aproveitar desse debate fora de época? (Fora de época, mas não fora de lugar…)

O crítico Roberto Schwarz, em seus estudos sobre o século XIX brasileiro, cunhou a expressão Ideias fora do lugar. O debate rendeu e rende até hoje. Mas simplificando a questão, Schwarz demonstrou como as principais correntes do pensamento mundial eram aqui usadas como fachada, vestidas e despidas conforme a moda. Por baixo de ideias e ideais modernos, o que existia de fato era o pensamento conservador e autoritário. Ele exemplifica o caso mostrando como os nossos liberais do XIX eram defensores ardorosos da manutenção da escravidão. Reinava a desfaçatez e a volubilidade.

Bem, de lá para cá avançamos muito. Mas nem tanto. A lei das biografias mostra que o desejo de pertencer ao seleto grupo de países modernos é só fachada. Arranhando um pouco o verniz progressista encontramos o mesmo obscurantismo de sempre. E o que é pior: a ideologia do atraso entranhada na Cultura Brasileira (ao menos nessa com C e B em caixa alta).

Em seu último livro (Martinha versus Lucrécia. Companhia das Letras), Schwarz fez a crítica ideológica do livro Verdade tropical (Companhia das Letras), de Caetano Veloso. O texto gerou polêmica entre os dois nas páginas da Folha de S. Paulo. Schwarz chegou a falar sobre certa desfaçatez camaleônica de Caetano. Acertou em cheio. Mais uma vez.