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As lendas são melhores que os fatos reais
Em 13 de fevereiro de 2019 | 0 Comentários

Conhecido por suas colunas em várias revistas, na rádio CBN e no programa “Fantástico”, da TV Globo, o administrador de empresas e conselheiro do universo corporativo, Max Gehringer, também resolveu falar sobre outra paixão: o futebol.

Nas coleções “A grande história dos Mundiais”, dividida em sete volumes, Gehringer revela sua coleção de todo tipo de informação sobre as Copas do Mundo e resgata histórias de bastidores sobre as edições do torneio, de 1930 a 2006.

Os Mundiais são descritos com base no contexto político e social dos países-sede e na trajetória das seleções campeãs. Em entrevista à IMPRENSA, o autor falou sobre a produção das obras, os momentos mais surpreendentes e como avalia as críticas sobre o evento deste ano.

IMPRENSA – Quando você decidiu escrever os sete volumes de “A grande história dos mundiais”? Qual foi o critério que utilizou para selecionar os temas abordados?

Max Gehringer –  Este é um trabalho de garimpagem sistemática que já tem mais de 20 anos. A primeira pesquisa que fiz, mais por curiosidade, foi sobre a Copa de 1930. Tentei descobrir como as seleções haviam chegado a Montevidéu. Numa era pré-Internet, isso era um trabalho mais árduo do que hoje possa parecer. Era preciso descobrir arquivos de jornais em bibliotecas e consultá-los página a página, o que demandava um tempo enorme. Mas as descobertas que fiz me interessaram o suficiente para continuar procurando. Tentei também buscar fatos interessantes sobre todas as Eliminatórias, que são largamente ignoradas no Brasil.

Tentei descobrir como as seleções haviam chegado a Montevidéu. Numa era pré-Internet, isso era um trabalho mais árduo do que hoje possa parecer. Era preciso descobrir arquivos de jornais em bibliotecas e consultá-los página a página, o que demandava um tempo enorme.
Quanto tempo você levou para produzi-los?
Ainda não terminei, e não creio que irei terminar algum dia. Arquivos virtuais de jornais e revistas têm aparecido cada vez com mais frequência, no Brasil e no exterior, e sempre trazem novidades. Desde o começo, tive duas preocupações. A primeira foi descobrir fatos sobre todos os países participantes, e não apenas sobre o Brasil. A segunda foi procurar checar, em material da época, fatos que hoje rolam na Internet como verdadeiros, dada a repetição constante. Até com certo desprazer, descobri que muitos desses fatos foram puras invenções de cronistas. Para mencionar alguns, o centromédio brasileiro Fausto não recebeu uma consagração da imprensa internacional em 1930, Leônidas não marcou um gol sem a chuteira em 1938, e nossa seleção não saiu desacreditada do Brasil em 1958. Uma pena, porque as lendas são melhores que os fatos reais.
Para mencionar alguns, o centromédio brasileiro Fausto não recebeu uma consagração da imprensa internacional em 1930, Leônidas não marcou um gol sem a chuteira em 1938, e nossa seleção não saiu desacreditada do Brasil em 1958. Uma pena, porque as lendas são melhores que os fatos reais.
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(7 vols. de 500págs., R$ 14,90 cada)

Nos livros, você detalha fatos importantes que marcaram os cenários político, social e cultural dos países envolvidos nos mundiais. Há alguma história que marcou mais?
Cada ciclo de 4 anos ano sempre encontra o Brasil cheio de novidades. Cito duas. Em 1994, a seleção viajou para os Estados Unidos com trocentos mil por cento de inflação e quando retornou, dois meses depois, a inflação tinha baixado para um dígito. Não tenho dúvidas de que Fernando Henrique se elegeu presidente na euforia do tetra, e acredito que Getúlio Vargas teria tido uma sobrevida física e política se o Brasil houvesse vencido a Copa de 1950.
Em 1994, a seleção viajou para os Estados Unidos com trocentos mil por cento de inflação e quando retornou, dois meses depois, a inflação tinha baixado para um dígito. Não tenho dúvidas de que Fernando Henrique se elegeu presidente na euforia do tetra
Qual Copa foi mais surpreendente para você?

Historicamente, a de 1954, embora eu não a tenha vivido. Havia na Europa a certeza de que a Hungria venceria, e o Brasil acabou sendo contaminado por esse favoritismo húngaro, tanto que não se achou em campo ao enfrentar a Hungria. A vitória alemã na final é justamente considerada como um milagre, porque os próprios jornalistas alemães, em uma pesquisa antes da Copa, não acreditavam que sua seleção passaria das quartas de final. Para nós, a surpresa mais dolorosa foi a de 1966, porque todo mundo por aqui estava certo de que o Brasil venceria com um pé nas costas. Acabamos caindo já nas oitavas, e até hoje se escreve que Portugal eliminou o Brasil na base da pancada, quando o vídeo do jogo mostra o contrário – o Brasil cometeu mais faltas que Portugal e foi derrotado porque os portugueses jogaram muito melhor, e porque Pelé foi escalado sem ter condições clínicas para jogar.

O que acha das críticas sobre a Copa do Mundo no Brasil?

Esta é a primeira Copa que vejo em que as notícias não são sobre a preparação da equipe, o perfil dos jogadores, ou o sistema tático a ser adotado. Nove de dez notícias versam sobre superfaturamento de obras, má administração, uso desordenado de dinheiro público, e mais uma penca de coisas ruins. A enxurrada de críticas tirou o foco do que uma Copa realmente é – uma exibição de talento futebolístico. Creio que isso mudará um pouco assim que a bola começar a rolar.

Como avalia a preparação do país para sediar o Mundial? Acha que o cenário é semelhante ao ocorrido em 1950 em relação aos atrasos das obras?

Praticamente igual. Em 1950, o único estádio que estava pronto quando a Copa começou era o do Pacaembu, que havia sido inaugurado em 1940. O Maracanã e todos os outros ainda estavam em obras, embora a imprensa brasileira tentasse esconder essa realidade, concentrando-se mais na melhoria da imagem que o Brasil conseguira aos olhos do mundo. Ou seja, nada muito diferente do que está acontecendo agora. A diferença é que em 1950 o Brasil teve quatro anos para se preparar e em 2014 teve sete, mas o tempo mais longo não foi suficiente para eliminar ou diminuir as trapalhadas.

Que tipo de legado a Copa do Mundo de 2014 vai deixar para o país?
Daqui a vinte anos, os livros que contam a história das Copas vão mencionar apenas o que ocorreu dentro do campo. Todo o resto, que hoje rende tantas notícias, será esquecido. O exemplo do Pan de 2007 é típico. Todo mundo sabe que muito dinheiro foi torrado, mas quase não se fala mais nisso. De qualquer forma, alguns dos novos estádios construídos para a Copa certamente se transformarão em monumentos perenes ao que não precisaria nem deveria ter sido feito.
Entrevista feita a Alana Rodrigues,
com supervisão de Thaís Naldoni,
publicada originalmente para o
Portal da Imprensa em junho de 2014.