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Autopublicação: do underground ao mainstream
Em 22 de julho de 2013 | 1 Comentários

Há não muito tempo, a tecnologia nos possibilitou experimentar a leitura através de novas plataformas e suportes, como os e-readers, tablets e smartphones. Essas novas plataformas, por sua vez, vêm potencializando transformações não só nos hábitos de leitura, mas também no próprio processo de publicação, mais especificamente na criação e na produção editorial de obras. Um exemplo claro dessas transformações é a autopublicação que, muito embora não seja uma prática nova e nem mesmo originada na era digital, foi impulsionada e segue crescendo paralelamente ao consumo e à produção de e-books.

Praticada há muito tempo, a autopublicação tem uma longa história de altos e baixos. Se tivéssemos que contá-la teríamos que retornar aos tempos de Gutemberg. Basta-nos nesse momento retornar a 1855, quando Walt Whitman levou sua desconhecida obra Folhas de Relva para uma gráfica local e publicou alguns exemplares com dinheiro do próprio bolso, distribuindo-a a alguns conhecidos. A história de Whitman, na verdade, não é um fato isolado. Muitos outros escritores que ajudaram a construir nossa tradição literária fizeram o mesmo, como Ezra Pound, que em 1908 financiou sozinho a publicação de seu primeiro livro de poemas A Lume Spento; ou como Virginia Woolf que, em 1917, junto com seu marido criou a editora Hogarth Press, responsável por publicar grande parte da sua obra e de outros autores.

Por causa dessas práticas, por volta da metade do século XX viu-se surgir uma quantidade razoável de editoras cujo principal foco era a publicação de obras financiadas por seus próprios autores. Estas editoras logo foram acusadas de falta de seletividade e consequente produção de obras de qualidade duvidosa, ganhando o rótulo de vanity press. Em meio a esse processo, a autopublicação em geral, não somente aquela feita através de editoras que permitem o autofinanciamento, também foi atingida pelo estigma.

Se há pouco tempo era usada principalmente para a produção de zines ou então por escritores demasiadamente corajosos ou alternativos, hoje a autopublicação se configura como uma das principais opções para aqueles que procuram publicar sua primeira obra, independentemente do gênero ao qual ela pertença.

Entretanto, mesmo que ainda bastante presente, esse estigma parece não demonstrar força suficiente para se sustentar em meio às atuais transformações nos processos de publicação. Se há pouco tempo era usada principalmente para a produção de zines ou então por escritores demasiadamente corajosos ou alternativos, hoje a autopublicação se configura como uma das principais opções para aqueles que procuram publicar sua primeira obra, independentemente do gênero ao qual ela pertença. Uma breve busca online pelo termo (ou ainda, por sua versão em inglês self-publishing) é suficiente para se perceber que a autopublicação, sem dúvida, já percorreu a maior parte da distância existente entre a obscuridade e o mainstream. Na categoria best-seller, sobretudo, a autopublicação possui um apelo enorme, tendo como exemplo mais famoso a trilogia 50 Tons de Cinza. Só esse ano, algumas listas de livros mais vendidos como a do New York Times, USA Today e Digital Book World foram compostas inúmeras vezes por obras autopublicadas.

Na categoria best-seller, sobretudo, a autopublicação possui um apelo enorme, tendo como exemplo mais famoso a trilogia 50 Tons de Cinza.

A exposição que obras de publicação independente vêm alcançando tem chamado cada vez mais a atenção não só daqueles com obras engavetadas ou rejeitadas por editoras, mas também de escritores com carreira já estabelecida. Os últimos, que já possuem contratos com editoras e um círculo de leitores formado, são geralmente seduzidos pela alta porcentagem sobre royalties da obra e pela possibilidade de total controle tanto sobre os direitos autorais quanto sobre o processo criativo-editorial que a autopublicação oferece. Há inclusive um novo termo para aqueles que publicam tanto por meio de editoras quanto por meios próprios: autores híbridos.

Principalmente por não se antagonizar ao sistema tradicional de publicação, ou às editoras mais especificamente, a autopublicação vem ganhando um grande espaço e protagonizando mudanças significativas no cenário editorial. Novas relações entre editoras, escritores e profissionais da área estão sendo estabelecidas. Atualmente muitas editoras procuram selecionar seus próximos títulos não somente em pilhas de manuscritos, mas também entre obras autopublicadas. Um e-book bem produzido e bem-sucedido é muitas vezes um melhor cartão de visita do que um email enviado a um editor ou agente.

Atualmente muitas editoras procuram selecionar seus próximos títulos não somente em pilhas de manuscritos, mas também entre obras autopublicadas. Um e-book bem produzido e bem-sucedido é muitas vezes um melhor cartão de visita do que um email enviado a um editor ou agente.

Além disso, o crescimento da autopublicação aumentou a demanda por editores, diagramadores, designers, revisores, agentes, profissionais de marketing e todos os outros envolvidos no processo editorial. Conscientes do estigma em torno da autopublicação e em busca de alta qualidade editorial que se iguale às das obras produzidas por editoras, escritores que optam pela autopublicação invariavelmente buscam os serviços de profissionais da área, contratando-os individualmente.

Outro aspecto da autopublicação que afeta o cenário editorial é sua abertura. Por seu baixo custo e alta flexibilidade, ela se configura como espaço aberto para qualquer tipo de obra ou estilo, o que beneficia gêneros novos ou marginalizados que não são ainda comercializáveis no mercado editorial tradicional, mas que podem vir a ser caso alcancem sucesso no meio independente.

Em resposta a essa movimentação e expansão do mercado editorial, uma sofisticada estrutura de apoio vem se formando em torno da autopublicação, com o lançamento de guias práticos, associações de escritores, prêmios exclusivos para obras autopublicadas, empresas de consultoria e marketing especializadas, plataformas de serviços para autores, sites de resenhas dedicados às obras, entre outros.

O que é certo, entretanto, é que a autopublicação está se legitimando como forma de publicação. Como fenômeno contemporâneo, ela atingiu o exato ponto no qual não é mais possível de ser ignorada.

O que se projeta com essas mudanças no cenário editorial é uma diminuição progressiva das diferenças até a total fusão dos meios de publicação. O que é certo, entretanto, é que a autopublicação está se legitimando como forma de publicação. Como fenômeno contemporâneo, ela atingiu o exato ponto no qual não é mais possível de ser ignorada. Se você ainda não leu uma obra autopublicada, certamente o fará em breve, talvez sem perceber.

Por Tecia Vailati

Tecia Vailati se graduou em Letras Português pela UFSC e possui mestrado em Study of Art and Literature pela Universidade de Leiden, onde atualmente leciona.