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Gosto de pensar que um projeto artístico existe para ser transformado pelas suas próprias células de formação, para virar uma inutilidade maravilhosa ou horrorosa
Em 15 de fevereiro de 2019 | 0 Comentários

Vencedoras do Prêmio Jabuti, Carol Rodrigues e Natalia Borges Polesso se encontram na Flip

PARATY — A carioca Carol Rodrigues, 32 anos, e a gaúcha Natalia Borges Polesso, 35 anos, têm muito em comum. Promessas da literatura brasileira, venceram recentemente o Prêmio Jabuti — o mais tradicional do país — e têm contribuído para a renovação de um gênero tradicionalmente menos prestigiado no meio editorial, o conto. Apesar das semelhanças, as duas, que participam da mesa “Pontos de fuga”, nesta quinta-feira, às 15h, se encontraram pessoalmente pela primeira vez aqui em Paraty.

As duas escritoras fazem agora sua estreia na programação oficial da Flip. Natalia, que mora em Caxias do Sul, conta que o Jabuti ajudou a colocar seu trabalho “no mapa”. Seu livro tem sido discutido em seminários e cursos de pós-graduação em todo o país. Já para Carol, radicada em São Paulo, a recompensa funcionou como um “incrível selo de validação”, que resultou em convites para eventos — incluindo a Flip.

Na mesa de hoje, as duas devem debater, junto com a angolana naturalizada portuguesa Djaimilia Pereira de Almeida, modelos, influências e perspectivas entre tradição e renovação. Em “Amora”, Natalia trabalha o amor entre mulheres, tema que considera pouco explorado na literatura brasileira. A renovação, acredita ela, está no tratamento das protagonistas.

— Tento fugir de alguns clichês e recortes sociais que as personagens dessa temática geralmente apresentam – diz Natália. — Criei personagens crianças, ou mais velhas, que falam da questão lésbica. Acho que isso sai do que se tinha até então, ou pelo menos do que estava circulando.

Carol se inspirou em uma viagem a Presidente Prudente para compor os 21 contos de “Sem vista para o mar”. Hospedada em um hotel de beira de estrada, usou as conversas de caminhoneiros e relatos de viagens como base para as histórias. Seu novo livro, o recém-lançado Ilhós (e-galaxia), bebe nas experimentações do movimento francês Oulipo: é dividido em duas partes, com dois personagens em cada uma delas. Um deles vive no tempo e, o outro, no espaço.

Acho que a renovação num meio cultural pode começar pelas fraquezas assumidas e pela busca de uma sinceridade mais profunda

— Gosto de pensar que um projeto artístico existe para ser transformado pelas suas próprias células de formação, para virar uma inutilidade maravilhosa ou horrorosa, e que isso já está fora de quem projetou — diz Carol. — Acho que a renovação num meio cultural pode começar pelas fraquezas assumidas e pela busca de uma sinceridade mais profunda, uma honestidade social, e principalmente pelo que o Italo Calvino diz no fim de “Cidades invisíveis”: abrir espaço para o que não é inferno.

Artigo publicado do jornal
O Globo em 27/07/2017

Foto: Monica Imbuzeiro / O Globo