Guiomar de Grammon Foto-Eduardo-Tropia
Jornada dupla e o desejo de escrever
Em 23 de fevereiro de 2021 | 0 Comentários

Conhecida como idealizadora e realizadora do Fórum das Letras de Ouro Preto, a história de vida de Guiomar de Grammont é toda ela marcada pelos livros e por um forte desejo de escrever ficção.

Autora de livro premiado com o Casa de las Americas, foi curadora do Café Literário da Bienal do Rio de Janeiro em 2007, curadora da homenagem ao Brasil no Salão do Livro de Paris em 2015, e ex-editora executiva da Record. Sua carreira como mediadora literária acabou por ofuscar sua produção literária autoral.

Guiomar aponta como fatores que dificultaram a carreira como escritora:

  • O fato de ter tido filhos precocemente;
  • A falta de estabilidade financeira;
  • A imaturidade à época em que ganhou um prêmio literário.

Guiomar iniciou a graduação em história na Universidade Federal de Ouro Preto aos dezessete anos, já casada e com um bebê recém-nascido. Aos dezenove, teve a segunda filha e, conciliando como pôde sua vida doméstica com a acadêmica, conseguiu concluir o curso.

Ganhou o Prêmio Casa de Las Américas em 1993 pela coletânea de contos O fruto do vosso ventre. Entre os jurados, estavam professores e ensaístas renomados da América Latina e do Brasil, Davi Arrigucci Júnior, Silviano Santiago e Trinidad Pérez Valdéz.

No ano seguinte, o livro foi publicado e bem recebido no Brasil, com resenhas na Folha de S.Paulo e no Estado de Minas, entre outros veículos.

“Apesar do prêmio e da recepção tão positiva a esse primeiro livro, quando eu enviava outros livros meus a editoras, as respostas, quando vinham, eram sempre cartas de recusa, algumas remetidas um ano depois que eu havia enviado meu livro.”

Guiomar, então, voltou-se à vida acadêmica para realizar um mestrado. Nesse período em que seguia se dedicando à criação dos filhos, lecionou filosofia para o ensino médio como forma de colaborar no orçamento da casa.

Cerca de seis meses depois do nascimento do terceiro filho, fez um concurso para ensinar filosofia no recém-criado Instituto de Filosofia, Artes e Cultura da Universidade Federal de Ouro Preto, ao qual é ligada até hoje.

Concluiu o mestrado em filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais e o doutorado em literatura brasileira na Universidade de São Paulo.

O abandono da escrita literária era porém a angústia que ainda atravessava sua vida. Após uma temporada de estudos na França, decidiu correr para concluir o romance que ficara de entregar a uma bolsa que havia recebido. Com o apoio do editor e amigo Claudio Giordano, de São Paulo, finalmente publicou o romance Fuga em espelhos pelo seu reputado selo, embora custeado inteiramente pela autora.

A ansiedade em concluir a obra e a imaturidade para escrever o gênero escolhido, fez com que mais tarde se arrependesse. Teria preferido não ter publicado esse livro, apesar dele ter sido bem recebido por parte da imprensa mineira.

“Eu me sentia incapaz de me igualar a mim mesma: não conseguia trazer para o romance a força visceral apontada nos contos laureados com o Casa de las Americas.”

Em paralelo à carreira acadêmica, seu trabalho na mediação literária foi se consolidando, enquanto seu próprio projeto de escrita ia ficando na gaveta. Uma década depois, julgava ter abandonado a construção de uma carreira literária.

Em 2006, a Ateliê Editorial, de São Paulo, publicou a coletânea Sudário, reunindo os contos publicados no livro O fruto do vosso ventre e outros contos mais recentes, com o mesmo espírito iconoclasta e com um lirismo permeado pela ironia. A partir desse ano, viria um longo intervalo sem publicar livros de ficção.

Em 2014, entregou seu romance Palavras cruzadas à amiga Vivian Wyler, editora da Rocco, que logo respondeu que queria publicá-lo, o que a deixou exultante, fortalecendo seu desejo de se dedicar novamente à escrita.

 

 

O livro ganhou uma edição francesa pela Metailié, editora especializada sobretudo em livros brasileiros traduzidos para o francês. Com sua obra apresentada por Davi Arrigucci, Guiomar conheceu pessoalmente a editora Anne-Marie Metailié e a reencontrou algumas vezes em eventos literários até que tomou coragem para enviar-lhe o original. A alegria foi sem tamanho quando a editora decidiu publicá-lo.

Les ombres de l’Araguaia foi muito bem recebido pela imprensa francesa. Saíram ótimas resenhas no Le Monde e no Figaro Littéraire, entre outros. A autora deu entrevistas para TV e rádios francesas e, no ano seguinte, voltou à França a convite de eventos para falar sobre o livro.

“O livro atraiu atenção também devido à edição primorosa, com capa e títulos definidos com tanta sensibilidade por Anne-Marie Metaillié e sua equipe.”

A boa recepção do livro na França, acredita Guiomar, deveu-se à tradução e edição primorosas, mas também pelo fato de que lá, ela não era conhecida por outras atribuições, não existia o ruído por ser a curadora de eventos literários que resolveu escrever.

Guiomar acaba de lançar o livro Os livros na minha vida. Realizado a partir de seu memorial, a autora propõe uma reflexão sobre suas múltiplas experiências profissionais nos últimos trinta anos da vida literária, acadêmica e cultural. Entre tantos feitos, trata minuciosamente de sua carreira literária e da recepção de sua obra pela crítica e pela mídia. Uma trajetória pessoal que certamente interessará a quem deseja conhecer melhor o funcionamento do mercado editorial no Brasil.

Imagem: Divulgação @Eduardo Tropia